07 Dezembro, 2007

O nosso tempo

Sentes amor, este grito que nos atravessa?
Podes ouvi-lo, o nosso grito,
O nosso romance?

Esta é a nossa manhã.
O sol ergue-se lentamente
Na janela do quarto
E é o nosso calor que enche os dias.

Não sentes amor a nossa hora?
Chegou enfim o nosso tempo.
Já não estamos atrasados.
Já não há mundo lá fora.
Hoje, o tempo é o nosso
E não há mais que o meu beijo na tua boca
E o teu abraço na minha esteira.

Sentes amor, esta certeza?
Este tudo estar correcto
E ser de nós?
O não estar a mais em nada,
O tudo saber a doce
Em tardes de quinta sem fim?

Chegou amor.
Chegou enfim
O nosso tempo
E de mais ninguém.


Deita-me comigo,
Descansa,
Tudo é nosso.

30 Outubro, 2007

Caranguejola

"Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre pelo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho- que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Pelo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Com a breca! levem-me prá enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou."
Mário de Sá-Carneiro

24 Outubro, 2007

"Porque posso morrer, sou livre!"

22 Outubro, 2007

Reposta

Olhei para trás
E vi um espelho
Que me reflectia nas horas gastas
Do tempo perdido.
Vi-me beber a prata dos corações,
Inconsciente
E esbanjar suspiros em poços negros.
Vi o rasgar as cartas dos anjos
E o vaguear em noites de sol
Sem ter o brilho da lua.

Mas meu amor,
Não me sinto perdido,
Pois o caminho é claro de trevas
E uma constelação me olha e ilumina.
Sei o que quero,
Sei para onde vou.
És como um farol que me guia.
E embora traga nas mãos
O sangue baço de outroras,
Apareço-te puro de alma,
O espírito poético
De quem só quer correr florestas castanhas
E planícies azuis,
Olhos nos teus olhos,
Gestos nos teus gestos,
Coração na tua mão.
E o tempo, meu amor,
É agora beijos e abraços
No teu peito de princesa.

21 Outubro, 2007

Tenho em mim dois seres

Tenho em mim dois seres
Determinantemente repugnantes.
Tenho em mim um poeta,
Que me grita a alma do mundo,
Das flores, do céu.
Que me arranca os mares e o sol
só pelo gosto da imagem.
Que me implora por ódio e amor,
Como quem implora por droga.
É ele que me encoraja o salto,
O suicídio,
Pois tem à vulgaridade um horror demente.
Odeia a rotina,
O sóbrio.
Para ele, a vida é embriagada
Ou não é vida de todo.
Vejo-o pelos cantos do corpo,
Acenando com a corda do enforcado
Ou com o veneno do absinto.
Julgo que se pudesse,
Me matava só para se ver morrer.
E agarrado a este,
As palmas suadas do medo do nada,
Tenho um cobarde
Que me salva de tudo.
Que me salva de mim.
É ele que me torna um mau poeta.
É ele que me mantém vivo.
"Come, my friends,
'T is not too late to seek a newer world.
Push off, and sitting well in order smite
The sounding furrows; for my purpose holds
To sail beyond the sunset, and the baths
Of all the western stars, until I die.
(...)
Tho' much is taken, much abides; and tho'
We are not now that strength which in old days
Moved earth and heaven, that which we are, we are;
One equal temper of heroic hearts,
Made weak by time and fate, but strong in will
To strive, to seek, to find, and not to yield."
Alfred Lord Tennyson

18 Outubro, 2007

Raúl Brandão - "Húmus"

"Terei de confessar a mim mesmo que vou para a cova com a boca a saber-me a vulgaridade e a pó? Antes me soubesse a fel - antes a dor!..."

Raúl Brandão - "Húmus"

"Trago comigo um pó capaz de doirar a própria eternidade. Não sei donde me vem, nem por que nome lhe hei-de chamar. Todas as noites sufoco diante do negrume - ele reanima-me. Insiste diante das forças desabaladas e da imagem da morte. Quero a vida! quero-a vulgar, tulmutuária e cega. Inerte não! inconsciente não! Tenho-lhe horror. (...)
_ Eu não vivi. Que importa, vais morrer! Para sempre, para todo o sempre, o mesmo buraco donde não sai rumor. Escuta isto: donde não sai rumor. Repete isto: para todo o sempre. Nenhuma explicação te é lícita, nenhuma transacção é possível. A morte não espera nem atende. É estúpida. Primeiro é estúpida, depois é incompreensível. É tremenda porque contém em si mistificação ou beleza. Absurdo ou uma beleza com que não posso arcar. O nada ou uma coisa que a minha imaginação não atinge. Se é o mistério, e se desvenda dum golpe, apavora-me. Se é o nada, repugna-me. Apenas um minuto, e lá em cima as mesmas estrelas, e outros vagalhões de estrelas... Para ela tanto vale um segundo como um século, carrega um ser inútil ou um ser delicado com a mesma indiferença para o túmulo. Tens passado a vida a esperá-la. Que outra coisa fizeste na vida senão esperar a morte? É a tua maior preocupação. Debalde arredamos: a vida não é senão uma constante absorção na morte. Então para que nasci? Para ver isto e nunca mais ver isto? Para adivinhar um sonho maior e nunca mais sonhar? Para pressentir o mistério e não desvendar o mistério? Levo dias, levo noites a habituar-me a esta ideia e não posso. Tenho-te aqui a meu lado. Nunca se cerra de todo a porta do sepulcro. Estou nas tuas mãos... Adeus sol que não te torno a ver, e água que te não torno a ver. Árvores, adeus árvores que minha mãe dispôs; adeus pedra gasta pelos teus passos e que meus passos ajudaram a gastar. Para sempre! Para todo o sempre! Tenho-te horror e odeio-te. Interrompes os meus cálculos. És o maior dos absurdos. Ver para não ver, ouvir para não ouvir, viver para morrer!..."

Raúl Brandão - "Húmus"

"É o Gabiru que se põe a falar sem tom nem som. Um homem absurdo. Olhos magnéticos de sapo. É uma parte do meu ser que abomino, é a única parte do meu ser que me interessa. Às vezes deita-me tinta nos nervos. Fala quando menos o espero. Chamo-o, não aparece. Se quero ser prático, gesticula dentro do casaco arrepiado _ A alma! _ A alma! _ Singular filósofo! É capaz de desejar a morte para ver o que há lá dentro; é capaz de achar vulgares até as coisas eternas. Ao lado da vida constrói outra vida. (...)
Para ele estas coisas etéreas são visíveis. Vê tão exactamente como eu te vejo a ti a paixão, o ódio, o amor, os grandes fluidos desgrenhados de piedade e de génio. Há noites em que não resisto: fecho-me com ele a sete chaves para o ouvir. Tem-me estragado tudo. É o doido que em nós prega e nos deixa aturdidos. Às vezes consigo afastá-lo, mas sucede que fico sempre com pena: se o escutasse, talvez fosse mais feliz e mais desgraçado... Desdenho-o, e sinto-lhe a falta quando o não tenho ao pé de mim. Deita-me a perder, se me apanha desprevenido. Quase sempre é ele quem manda em minha casa, e, mesmo quando falo como toda a gente fala, e quando rio como toda a gente ri, só a ele o ouço no mundo. Diz-me coisas que nunca ouvi, isola-me num vale apertado e cismático, longe de toda a terra, arrasta-me e desespera-me. Desaparece como um cão vadio, e quando volta, com lama de todos os caminhos, folhas de todas as florestas, reflexos de todos os enxurros, vem exausto, mudo e feliz. Vem feliz! É ele que me prega: _ Toda a agitação é inútil. Não tenhas medo da desgraça! _ e eu tenho medo da desgraça. À força de hábito cheguei a mantê-lo no seu lugar, mas nunca o pude suprimir, e quanto mais me aproximo da morte, mais saudades levo do Gabiru, que me estragou a vida toda."

15 Outubro, 2007

A prenda perfeita, para as nossas tardes de outono. Que enorme romance...